Tudo é ruído; a mente é que lhe vê estruturas. Mas a mente também vê o ruído de que é feita a estrutura daquilo que vê. Então o ruído é, como a estrutura, criação da mente. A realidade não tem … Continue reading
Eis uma frase que costuma vir depois dum comentário depreciativo racial, a seguir a um «atenção, que eu não sou racista»—
— Eu até tenho um amigo que é preto.
Além dum profundo mau gosto, este reparo é antes um enorme estrago:
O suposto amigo deixa de ser uma pessoa, sequer um amigo, e transforma-se num álibi falhado daquilo queria demonstrar ignorar: é preto.
Depois, ter um amigo preto não exclui racismo. Ser racista é defender a existência e superioridade duma raça humana sobre outra. Assim é perfeitamente possível — e comum, até — um racista crer, por exemplo, que os africanos no seu conjunto são uma raça inferior, mas que aquele seu amigo individualmente é uma excepção ao grupo.
Finalmente, há ali naquela afirmação um certo ar de majestade. Quase que parece que é um privilégio aquele «eu» ter um amigo que é «preto». E se o seu interlocutor não tem um amigo preto ele próprio, então não é tão digno de se afirmar como não-racista como, e eis a utilidade desse amigo, de ser racista.
Considere a sua agenda de contactos do telemóvel — desses, quantos são seus amigos? Mesmo?
Agora outra pergunta: se os fosse a convidar, de improviso, para um encontro pessoal, quantos, daqueles, aceitariam?
Eis o problema: temos menos amigos do que pensamos. Muito menos.
Sem falar em colegas, conhecidos, e outras relações que não se pretendem ser de amizade, olhemos para aqueles que tomamos por amigos.
Temos amigos que já foram. Amizades que o tempo e a geografia fizeram expirar. E temos amizades que, manifestamente, sempre foram unidireccionais e não reciprocadas.
Então a minha proposta: anuncie-se àqueles o fim da amizade.
Estou a falar a sério.
Abra o seu processador de texto. Escreva uma carta ao seu grande amigo de infância com quem nunca mais falou, ao seu vizinho com quem viu desenhos animados durante anos e anos de manhãs de fim-de-semana, ao seu amigo que nunca responde aos seus emails, aos seus SMS, que nunca pode estar consigo, a todos os seus amigos que, enfim, já não são, e anuncie-lhes: a amizade expirou.
Sem rancor. Sem nenhum sentimento negativo. Simplesmente, oficializando o fim.
Sugiro até que a carta tenha uma nota positiva, recordando que a amizade passada foi vivida como importante para si.
Caro Fulano,
Fomos grandes amigos. Prezei muito a nossa amizade e o tempo que passámos juntos. O que vivemos foi importante para mim, e recordar-te-ei com saudade.
Mas receio que os nossos laços tenham sido desatados pelo tempo; assim expirou a nossa amizade.
Apagarei o teu contacto das minhas agendas, mas farás sempre parte da minha história pessoal.
Adeus,
(assinatura)
Imprima. Assine. E envie por correio postal.
Quem sabe no que dará.
Não é isto o que as pessoas normalmente fazem, eu sei. Deixam ficar, no ar, amizades desqualificadas em conhecidos de vista, com raros «havemo-nos de encontrar», e alguns, mais raros, desses encontros. Encontros onde se falam de banalidades superficiais, onde o tempo nunca se recupera para que caiam as máscaras — máscaras doutros tempos, ainda por cima — e se retome uma relação de amizade emocionalmente gratificante.
O resultado provável destes fechos anunciados será uma agenda de contactos minúscula. Imagine ficar, no telemóvel, só com uns amigos próximos. Poucos, mas bons, são, ainda assim, poucos.
Então da constatação das poucas amizades pode surgir a abertura para novas amizades. O colega de trabalho que já convidou duas ou três vezes para um copo? Aceite, desta vez. Afinal de contas, não é como se tivesse muitos amigos.
As amizades expiradas ocupavam espaço numa realidade que agora está livre.
Voltemos ao cenário inicial: subitamente, precisa dum amigo. Chat no Facebook, telefone, ou o que seja, não funciona. É daqueles momentos em que precisa mesmo dum ser humano de corpo presente. Quem tem disponível para si?
Possivelmente quem estaria disponível, teoricamente, está geograficamente distante. Chamemos-lhes, por isso mesmo, amigos teóricos. Ambos participam numa relação contínua no tempo, por comunicação constante, Skype, email, encontros infrequentes, mas estão inacessíveis em caso de improviso.
Depois, amigos práticos. O nível de intimidade permite contactos a qualquer hora, e encontros não agendados. Lembra-se de tempo em que isso acontecia? Na juventude, onde os nossos amigos eram nossos vizinhos.
Portanto, a minha sugestão avançada: que se construa uma rede de amizades segundo o mesmo esquema doutros tempos — onde dantes tínhamos amigos como colegas de carteira de escola, procurem-se amigos em colegas do trabalho; onde dantes tínhamos amigos vizinhos, procurem-se em cumprimentos cada vez mais demorados em reuniões de condomínio (não têm de ser más, sabem? No meu prédio damo-nos todos bem) e no parque de estacionamento do prédio. Sem viéses de idade, já agora.
Transformar vizinhos em amigos é capaz de ser estranho quando se viveu tantos anos sem pouco mais que os cumprimentar. Se calhar nem sabe como se chamam. É mais fácil fazer isto ao acabar de se mudar, mas não é impossível começar por trocar impressões com o seu vizinho do estacionamento num dia de repente, «olhe, preciso de levar o meu carro à revisão, mas estava a pensar em trocar para um sítio mais barato donde eu o costumo levar», e continuar a partir daí.
Depois, se tiver lata, e mesmo que não tenha, proponha actividades: poker, um churrasco, boleias partilhadas, empréstimo de livros, explicações grátis aos filhos do vizinho a troco de aulas de xadrez, piano, sei lá.
Improvise.
Desfrute dos seus novos amigos.
«Coragem», disse-me, «coragem».
Que era exactamente o que eu não tinha.
Detrás do palco, conseguia ouvir uma plateia inquieta.
«Eles estão ali para ti».
Mas eu não conseguia mais. Será que ninguém me percebia?
Será que eles, há anos nos bastidores, e será que eles, há outros anos na plateia, não sabem que até a fé em si pode um dia desaparecer?
«Queixo levantado, vá».
E eu, vestido de fraque, não queira mais aquilo. Não queria subir ao palco com a minha dúvida herética, receber um foco que não me iluminava mais, e, sozinho, dizer em voz alta aquilo que o meu espírito já não pronunciava comigo.
«Não podes desistir».
O mais elevado sinal de humildade é, justamente, desistir. Porque é que não poderia fazê-lo?
«Prova-lhes que consegues».
Até para falhar é preciso provar.
Então endireitei os ombros, inspirei e aguentei o ar nos pulmões, para satisfação de todos nos bastidores. Levantei o queixo, e olhei-os. Eles acenavam-me que sim, que era assim mesmo.
Fiz um gesto com o pulso, rodando a mão à artista da belle époque. Senti o punho do fraque na pele. Com um sorriso de cena, entrei no palco. O aplauso ferve na sala. Fechei-lhes os olhos durante um segundo, aperto os lábios, para dizer que podiam parar de aplaudir.
Silêncio.
Dei um passo ao lado, e abri o braço para apontar para o lugar onde estava.
«O palco é agora vosso».
O vento corre em todas as direcções. O rio, numa só. A mente é ar, o corpo é água; estes são os elementos. No rio, um carreto de madeira a flutuar: o eu, levado pela corrente, que leva a mente, um papagaio de papel, com mais ou menos folga, consigo, a flutuar noutra corrente. Entre a inevitabilidade e o caos, uma luta por um fio. Eis a identidade, eis a liberdade.
Pergunta o humilde aprendiz:
— E agora?
Responde prontamente o mestre:
— É assim.
E ele ficou Iluminado.
Acabo de saber que o meu vizinho de baixo, o Sr. Figueiredo, faleceu. Mas faleceu mal, por minha culpa.
O Sr. Figueiredo tinha a cara do que seria o pai do Calvin, do Calvin and Hobbes, com mais uns anos. Era aposentado, mas alto, jovial, com um bigode raso grisalho. Afável.
(Sei que há pessoas que se dão mal com os seus vizinhos, mas não eu, e não ninguém neste prédio: são todos bons vizinhos. Sempre achei que o Sr. Figueiredo, morando debaixo de mim, tivesse razões de queixa minhas, mas ele nunca foi capaz de dizer nada, mesmo quando eu lhe rogava para que me dissesse se eu fizesse ruído a horas tardias — garantia-me sempre que não).
No Natal passado, escrevi-lhe uma mensagem de Natal num minúsculo cartão da UNICEF, para lhe deixar na caixa do correio quando eu fosse sair para Lisboa, para passar o meu Natal com a minha irmã.
Feliz Natal
do vizinho
do 2º andar
- Ricardo
Mas com a pressa do dia de saída, só me lembrei do postal quando já estava no carro. Não voltei para trás, achando que era um mero pormenor, estas felicitações, que pouca diferença faria no seu dia de Natal, e que, afinal, sempre poderia guardar o postal e dar-lho no ano seguinte.
Não haverá ano seguinte.
Não lhe deixei o postal na sua caixa de correio, e por isso o Sr. Figueiredo faleceu mal. Ficou incompleto. Não — eu fiquei incompleto.
Ainda não sei exactamente quando e de que morreu. Ia jurar que ainda há pouco o vi na garagem a sair do carro. Os nossos carros estavam em lugares afastados, e, não sendo eu expansivo nestas situações, não acenei com o braço para o cumprimentar.
Mal conheci o Sr. Figueiredo, na verdade. Nunca consegui construir uma conversa que se descolasse da circunstância e entrasse por aí além. Mas se calhar não era preciso.
Sem o conhecer, garante-me a sua fisionomia desenhada pelo Bill Waterson, e todas as outras pistas, que era boa pessoa. O mundo tem uma forma de fazer as formas das coisas expressarem o seu interior.
Não lhe tendo deixado o postal, não lhe maximizei a utilidade, não maximizei a felicidade, ainda que mínima a diferença, porque o máximo nestas coisas está sempre longe do tempo possível. O tempo. Quem sabe, se lhe tivesse deixado o postal, a história do cosmos se alterasse, e ainda hoje o Sr. Figueiredo estivesse vivo. Quem sabe a diferença que faria. O efeito borboleta. Ondas de causalidade. Ou apenas uma atenção, em vida, do vizinho de cima.
Sem o Sr. Figueiredo, o meu prédio ficou sem um andar. A minha casa, mais pobre.
Lá fora, os carros continuam a passar na rua, indiferentes.
Mas o resto do cosmos sabe que falta uma pessoa.
Pelo menos, eu sei.
A propósito do fenómeno de emergência, a inteligência que surge quando em colectividade — das formigas individuais às colónias, dos neurónios individuais à mente —, mais que a soma das partes, poder-se-ia pensar sobre cada humano individual como também ele um agente duma inteligência da comunidade.
Agora, a constituição dessa comunidade é o que me parece como aquilo que cada agente decide conectar-se, mais os outros que fizeram o mesmo.
Só que vejo muita gente do mundo industrializado a saber apenas uma língua estrangeira, o inglês, e a ligar-se apenas a uma fonte: a dos EUA. Seja no consumo de cultura, de notícias, de mundividência em geral, os agentes do mundo industrial obtêm todos os mesmos estímulos do mesmo sítio.
Ao obter os mesmos estímulos, ao ligarem-se apenas a uma banda estreita da cultura humana, os humanos perdem o potencial não só de beneficiarem o todo, como de serem beneficiados pelo global. Afinal de contas, ao termos todos os mesmos estímulos, a mesma matéria prima, é natural que a nossa criatividade, a da subcultura, se estagne, resultando na criação de objectos idênticos por parte dos seus agentes.
E se, como neurónios com mais sinapses, cada pessoa se ligasse a outras fontes da cultura humana1? E se agentes isolados, neurónios por ligar, como gerações inteiras de africanos, sul-americanos, e por todo o resto do globo neglicenciado — que Negroponte quer ligar com o seu projecto One Laptop Per Child — participassem na construção da Alexandria colectiva, da grande Agora, da Internet?
Isso sim, seria a emergência duma cultura humana global.
Não seríamos, todos, beneficiários?
O mundo é tóxico, imundo, prolixo em lixo, de ócio ocidental, ópio mundial, todo contaminado, todo minado.
São tóxicas as cidades, são tóxicas as pessoas. Tudo o que é humano, é tóxico.
São tóssicas as pessoas que tossem para o punho fechado, que segura um microfone invisível de micróbios, para anunciar bem, ahem, tomem lá disto, que é tóxico.
São tóchicos os Tó Chicos, chico-espertos que não sabem o que são xi-corações, feitos de xisto e chistes, frios e fáceis, fatelas e foleiros.
São tócsicos os toques, javardos, parvos, de pessoas táxi que se provam em privado, saem intoxicadas, e depois privam que provaram estamina estouvada, e se contaminam, contaminam outros, contaminam contos de fadas com contas de fodas.
As cidades, todas Tóxio, todas toksycidade. De Kyoto também um coto. Lisboa dantes pelos vistos cheirava bem, cheirava a Goa, mas o fado foi sal e foi azar de ter sido selo de Salazar, e foi-se a Amália, o martelo e a foice. Agora amai-a, a cidade malograda, a Kapital onde é tóxico o techno e o ecstasy, junto texasy, porque em Houston é igual, ¿sexo así?, tudo igual no mundo tóxico, e claro que aqui é assim.
Cidades num mundo de plástico como o sorriso das pessoas, tóxicos os fumos e os flatos, em sentido lato, de facto, e por cima do mundo, por cima da camada de jactos jactantes, eixos taxativos de gente-sémen, há satélites — satélites que troçam, que trocam toxinas da Catrina, de mão em mão, em directo da Praça do Marquês do Pombal para o terceiro mundo — a contar do Sol.
Face ao presente exposto, senhor presidente da assembleia de assentos e emblemas, a nossa recomendação é de lavar abundantemente (Génesis 7:12) os olhos de que quem não enxerga, e que, em caso de dúvida ou persistência dos sintomas, se verifique a toma ou se consulte um tomo, o que ocorrer primeiro, que é como quem diz o que primeiro vier à cabeça. Como isto.
Publique-se.
Como designar aquele que não crê ser possível conhecer a própria possibilidade da existência de Deus?
Anagnóstico? Não pode ser, pois a palavra é relativa a anagnosta.
A-agnóstico? Não dá, porque não se fazem prefixos de negação por justaposição hifenizada.
Aägnóstico? Sim, isto é que era. Seria tão giro que a língua portuguesa não só não tivesse perdido o trema (que se usava para assinalar a pronúncia de vogais normalmente mudas1), como tivesse alargado o seu uso para todas as vogais que, sendo justapostas, se tomam e pronunciam como independentes2.
Bem-vindo ao serviço de apoio do número nacional de emergência, 112. Por favor seleccione uma das seguintes opções. Para emergências médicas e de saúde, prima, 1. Para emergências de segurança pública e pessoal, prima, 2. Para reportar um acidente ou sinistro, prima, 3. Para outros assuntos ou para falar com um operador de atendimento ao cliente, prima 0.
*Biip*
Você seleccionou, emergência. Médica. E de. Saúde.
Ta na na na naaa, na na naaa, ta na na naa— A sua chamada é importante para nós, por favor aguarde. Será atendido assim que possível. Ta na na na naaa, na na naaa, ta na na naa— A sua chamada é importante para nós, por favor aguarde. Será atendido assim que.
— 112 emergência nacional boa tarde?
— Está, olhe, é para pedir uma ambulância para o meu avô que—
— Concerteza. Estou a ter o prazer de falar com?
— Bláblá Bláblálves.
— Como está, senhor Bláblá Bláblálves, passou bem?
— Hã, bem, obrigado. Ouça, eu estou a precisar duma ambulância para—
— Muito bem, precisa duma ambulância. Vou então pedir que me dê o PIN original do seu cartão de cidadão.
— Quê? Eu sei lá do meu PIN. Isto é mesmo urgente. Não pode…?
— Sem o PIN original do cartão de cidadão, vamos então ter de proceder à autenticação doutra forma. Vou então pedir que me indique o seu número de boletim das vacinas.
— Só um momento.
— Concerteza, senhor Bláblá Bláblálves.
— Pronto. É o nove dois, um um cinco, sete três, sete nove zero.
— Muito obrigado. Vou agora pedir que me indique a morada do hospital onde nasceu.
— É a Rua de Bláblábláblá, dezanove. Vila de Bláblá. Santa Bláblára.
— Muito obrigado. E agora vou pedir que me indique os três últimos algarismos de π.
— São o um, o zero, e o três.
— Muito obrigado. Só um momento, por favor, enquanto autenticamos estes dados. …, …, … Muito obrigado por ter esperado. Vamos então enviar uma ambulância para o senhor Bláblá Bláblálves.
— Não, não é para mim. É para o meu avô que acho que teve um enfarte, que está ali caído no chão.
— Peço imensa desculpa, mas os pedidos para o 112 têm de ser efectuados pelo próprio. Para fazer esse pedido, terá de desligar e ter o próprio utente a requisitar. Há mais alguma coisa em que eu possa ser útil?
— Olhe, não, deixe estar.
— Então em meu nome e do Instituto Nacional de Emergência, desejamos-lhe a continuação duma boa tarde.
Se uma pessoa não vê outra há algum tempo, tende a perguntar:
— E então, o que tens feito?
O que tens feito. Nunca o que tens pensado, o que tens aprendido, o que tens vivido, o que tens sido.